Alguns pensamentos sobre privacidade e segurança... ou sobre a sua falta e o seu desrespeito.

Tenho, ultimamente, estado no meio dum verdadeiro turbilhão de sentimentos conflituantes, motivados pela atual situação mundial, que colocou uma grande percentagem da população mundial na contingência de ter de trabalhar a partir de casa, usando plataformas digitais.

Ora, sendo eu uma pessoa de mente aberta e, desde sempre, adepto da utilização destas tecnologias, não tive qualquer dificuldade em fazer esta transição.

Acontece que, por um acaso da vida, sou professor. E, mais especificamente, professor de Inglês. Até vem mesmo a calhar... Também calha bem o facto de ter tido o privilégio de começar a usar computadores com os meus 12 anos e de ser utilizador de software Open Source desde 1998. Ena, já lá vão 22 anos!

Os meus primeiros passos no mundo do software Open Source foram dados graças ao senhor Bill Gates e ao seu bug disfarçado de sistema operativo chamado Windows, a quem, desde já, quero enviar os meus sinceros agradecimentos por me ter mostrado o caminho da verdadeira luz informática tão cedo!

Desde aí, nunca mais olhei para trás! E, cada vez mais, tenho a plena convicção que este é o caminho certo, senão vejamos:

Este tipo de software é:

  1. dum modo geral, gratuito;

  2. livre para ser modificado e adaptado de acordo com as necessidades de cada um;

  3. aberto, podendo cada um investigá-lo e contribuir para a sua melhoria;

  4. seguro, pois todos podem encontrar as suas falhas e corrigi-las;

  5. respeitador da privacidade e liberdade de todos, rejeitando (normalmente) a utilização de ferramentas de “tracking”;

  6. democrático, pois favorece o acesso a ferramentas de trabalhos a todos, inclusivamente aos menos favorecidos;

  7. mais humano, pois permite a sua utilização de forma livre;

  8. “mais amigo” do hardware. (Que o diga o meu PC que tem mais de 15 anitos!)

Bem, penso que perceberam a ideia... Não me quero tornar chato.

Então e porque é que eu para aqui estou a desenvolver esta conversa?! Porque, agora, todos temos de trabalhar a partir de casa e, nós, os professores, temos de dar aulas aos nossos professores e receber formação pela Internet e tudo isto é de bradar aos céus!!!

Porquê? – pergunta o meu paciente leitor ou a minha atenta leitora. Então eu não gosto destas coisas?! Claro que sim!

O problema é que eu sou confrontado com pessoas que fazem escolhas reveladoras de pouca sensatez!

Vamos lá falar a sério das coisas!

Com base em que argumentos é que se opta por estar horas em videoconferência com alunos, no Zoom, quando se sabe das falhas enormes que a essa plataforma tem apresentado? Para quem não conhece, deixo aqui este link cheio de pérolas preciosas: https://mastodon.xyz/@nextcloud/103962014914104255 Aqui, dá jeito saber um pouco de Inglês. Mas podem usar o mau Google Tradutor... (Eu vou esquecer que disse isto! Estava a falar para aqueles que não tiveram o privilégio de poder estudar Inglês.)

Qual é o Diretor duma escola que consegue garantir que a segurança dessas comunicações existe? Que elas não são gravadas? Que sabe o que acontece por detrás do que nós estamos a ver?

Com base em que argumentos é que se colocam os alunos em plataformas de aprendizagem controladas por empresas como a Microsoft ou a Google, quando todos conhecemos a sua avidez pela apropriação de dados dos seus utilizadores?! Que diretores de escolas conseguem garantir o funcionamento transparente destas plataformas, quando têm sido divulgados tantos escândalos relacionados com a má gestão que essas empresas fazem dos dados que lhes são confiados?

Estamos a falar de crianças... E de pais que, em muitos casos, esperam que a escola os substitua na função de proteção dos seus filhos nestes assuntos, dado que não tiveram oportunidade de aprender a lidar com estas ferramentas.

Para os que tiveram a paciência de ler até aqui, deixo o link para um documento muito interessante, elaborado pela Comissão Nacional de Proteção de Dados (https://www.cnpd.pt/). Aconselho vivamente a sua leitura! O documento está na sua página mas, para o caso de mudar de sítio, deixo aqui uma cópia: https://cloud.pinheirodeabrantes.net/index.php/s/BjK4oJ4yrMpeEHt. Uma delícia!

Perante tudo isto, eu deixo uma questão: Será que podemos confiar em empresas que usam milhares cokies para nos investigar e que partilham essas informações com outras tantas entidades? Eu sei a minha resposta. Caberá ao leitor e à leitora encontrar a sua...

Depois há, ainda, um problema: ainda ninguém me conseguiu explicar porque são feitas estas escolhas, para além das tradicionais justificações: Porque sim! Porque eu quero! Porque está na moda! Porque estes ou aqueles também usam! E fundamento, senhores, onde está a fundamentação séria das opções?

Pergunto, ainda: Porque será que Taiwan, Singapura, Nova Iorque proibiram a utilização da referida plataforma nas entidades oficias e nas suas escolas?

Então, e o que fazemos? Somos uns infelizes, condenados ao isolamento social e escolar eternos?! Acompanhe-me, por favor!

Eu falei em software Open Source, aquele que qualquer entendido na matéria verifica, a nível mundial, e contribui, com o seu tempo, dedicação, sabedoria e cuidado para melhorar. São milhões de horas oferecidas à comunidade! Chama-se, a isto, voluntariado! Ah! Mas isso só é bom se for para ajudar os velhinhos, pensará o/ meu leitor/a... Engana-se. É com este tipo de trabalho que se ajudam muitos daqueles que não têm uma coisa que nós ainda vamos tendo: liberdade!

Mas, vamos ao que interessa...

Nós precisamos de comunicar com os nossos alunos, com segurança, privacidade e confiança que não há mais ninguém a gravar ou a analisar se os alunos têm pais, irmãos, cães, gatos, livros, um PC assim ou assado, flores, cadeira de gamer, etc..., e a enviar essas informações para empresas de análise de dados e de construção de perfis de utilizadores.

Assim, podemos usar ferramentas como o #Jami, https://jami.net/, o #Jitsi, https://jitsi.org/, para as comunicações em tempo real e o #Moodle, https://moodle.org/?lang=pt_br, para todas as outras necessidades. Todas estas aplicações têm mais de uma década de existência e desenvolvimento, aproximando-se rapidamente, o Moodle e o Jitsi, das duas décadas!

Todas estas plataformas se encontram entre as mais seguras e funcionais, respondendo a todas as necessidades existentes ao nível do ensino à distância e não há algo que as outras façam que não seja possível fazer com estas plataformas.

Para além das características que enunciei anteriormente, todas estas plataformas são financiadas por inúmeras entidades que têm como objetivo a criação de ambientes seguros e valorizam a preservação da privacidade dos utilizadores da Internet. São, também, entidades sem fins lucrativos, que não dependem da exploração dos seus utilizadores para fazerem negócio e para sobreviverem.

Estas três plataformas, disponíveis para PC, Mac, e smartphones, foram as que eu escolhi para ajudar os meus alunos nesta fase difícil. Do que ficou dito anteriormente, perceberão o porquê.

Quem me conhece sabe que eu valorizo valores e que o que menos valor tem para mim é o dinheiro, ao contrário do que se passa por este mundo fora. Há uma frase que alguém disse em Inglês, que é mais ou menos assim: “Stand for your values even if you have to stand alone!” Numa tradução livre: “Defende os teus valores, nem que os tenhas de defender sozinho!”

Devo dizer que estes valores não são meus, são nossos. Deviam, cada vez mais, ser uma preocupação de todos. São valores cristãos e valores defendidos pelas sociedades mais avançadas deste planeta que habitamos: Liberdade, Segurança, Privacidade, Respeito, Entreajuda, etc... Todos eles se encontram subjacentes à criação destes softwares.

Permitam-me, para terminar, fazer outra citação, desta feita em relação à questão da privacidade: “It's not that I've something to hide, it's just that I'm afraid of your judgement and what of you can do with my data!” Qualquer coisa parecida com: “Não é que eu tenha algo a esconder, tenho é medo do vosso julgamento e do que podem fazer com os meus dados!”

Estas duas frases exprimem, em resumo, o que eu penso da utilização das TIC e o que desejo fazer com elas, quando as uso particularmente ou com os meus alunos.

Quanto a si, caro leitor ou leitora, aconselho-o/a a não se deixar ficar pela leitura deste texto. Leia, também os documentos nos links que aqui deixo e outros que resolva pesquisar. Depois, pense se está, tal como os seus, a fazer as escolhas mais acertadas. Não se limite a aceitar as escolhas dos outros por si. Questione o porquê das suas escolhas e porque fazem determinadas opções sem o seu parecer, opções essas que o/a envolvem a si e aos seus. É um direito que lhe assiste. Aos outros cabe a obrigação de lhe dar as respostas que precisa.

Disto dependem duas coisas: a sua liberdade e felicidade, tal como a dos seus e a e todos nós. Hoje e amanhã! Pense nisto!